segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Gin Quanto Baste - Parte I - Primeiros Momentos * * Nos Adidos**


8:00 da manhã, Carlos passou o enorme portão de acesso a Lanceiros 2, parou, percorreu com o olhar a enorme parada, procurando para onde se dirigir, por fim percorreu resoluto os longos metros que o separavam da construção principal e que ele achou que poderia ser a companhia de adidos. Reparou numa série de bancos de madeira, ia colocar o saco num deles, mas estavam molhados pela orvalhada da noite e da madrugado, resolveu colocar o saco na calçada e ficou expectante olhando ao redor, um cabo passou perto e Carlos lhe dirigiu a palavra.
- Nosso cabo, onde fica a companhia de adidos.
- Logo em frente. O cabo se aprontava para continuar a caminhada, quando novamente Carlos o interpelou.
- Não vejo ninguém por ali, quando abre a secretaria.
- Já abriu meu furriel, alguns já lá estão.
- Obrigado.
Agradeceu e pegando no saco se dirigiu para onde o cabo indicou. Transitou por uma porta larga e alta que deu acesso a grande sala, onde no final da mesma se encontrava um Primeiro-Sargento e diversos cabos. Entrou numa das filas onde já se apinhavam alguns com a mesma parida sorte. A fila andava rápido, só se ouvia a voz dos cabos e do Primeiro, no rosto de todos estava estampado o sorriso amarelo que a desdita ditava. Carlos reparou que a grande maioria eram jovens como ele, mas por ali estavam todas as patentes de um Exercito.
Chegou por fim a vez.
- Bom dia. Disse o cabo
- Carlos apresentou a documentação que lhe tinha sido entregue uma semana antes em Tancos na Escola Prática de Engenharia.
- Bom dia cabo.
- O Sr. tem de ir ter com o nosso Primeiro.
Carlos olhou para a esquerda onde estava um Sargento, entradote e pesado, saiu da fila e entrou na outra onde no principio da mesma estava de pé atendendo o Primeiro-Sargento.
 Chegou a sua altura de atendimento.
- Bom dia Primeiro. E voltou a apresentar a papelada, dois simples documentos e a sua caderneta militar.
- Bom dia. Retorquiu o Primeiro
- O Senhor já sabe para onde vai, não é verdade?
- Sei sim, vou para férias em Moçambique, respondeu Carlos metendo graça para desanuviar algum nervosismo que no momento sentia.
O Primeiro sorriu
- Espero que se divirta então. Ficando com os dois documento, entregando mais outros dois, mais um papel que mais parecia um bilhete de avião e continuou.
- Todos os documentos são para entregar na 2ª Companhia de Engenharia do Agrupamento de Engenharia de Moçambique, vai para Vila Cabral na Província do Niassa substituir um 2º Sargento a sua comissão é uma rendição individual, estes papelinhos. Apontado para o que parecia ser um bilhete de avião.
-É para entregar na Base Aérea e lhe será dado outro em troca, tenha então umas boas férias Furriel. Despediu-se assim o Primeiro ajeitando-se na brincadeira.
- Deus o oiça, Primeiro, já agora como vou para a Base.
- Um autocarro da Força Aérea os vêem buscar pelas 9:30
- Obrigado e bom dia para o senhor. Se despediu Carlos do Primeiro.
Voltou para a parada, desta vez colocou o saco num banco e se sentou em cima do mesmo enquanto sentia o aconchegante agasalho da gabardine militar.

Voltaram os pensamentos de sair. Ainda estava a tempo de sair pela porta de armas e dizer adeus a tudo, criar nova vida algures, nova identidade, pedir asilo político e sair do tormento de ideias.

Analisava os rostos, desde os mais jovens aos mais graduados, os mais velhos encontravam conhecidos de outras paragens e se juntavam em grupos, mas ele bem reparava que a tranquilidade dos mesmos era aparente. Novos e velhos levavam cigarros aos lábios em baforadas intermitentes, como esses fossem os últimos cigarros da vida.

Perguntou a um capitão se sabia de algum bar por ali, o capitão lhe indicou por onde ficavas o bar. Para lá se dirigiu.

Pediu ao soldado uma sandes de presunto e um refresco de laranja “Sumol”, um pacote de bolachas “Maria” para a viajem. Depois de saborear a sandes e a laranjada, pediu um café, o qual saboreou juntamente com um cigarro, pagou e lhe veio a ideia que seria a última refeição em solo Pátrio.

Chegara por fim o autocarro da Força Aérea, Carlos lembrou-se do irmão, que tinha partido para a Guiné como motorista da Força Aérea, por pouco não lhe vieram as lágrimas no momento, não tinha tido autorização do comandante do curso de minas que estava a tirar na altura, para se poder despedir dele no embarque. O nó que tinha na garganta se desfez quando ouviu chamar pelo nome para entrar no Autocarro pintado de azul.

Faltava um minuto para a hora que o primeiro tinha indicado 09:30.

Saiu o autocarro no sentido contrário que tinha percorrido anteriormente, atravessou Lisboa de ponta a ponta e absorveu todo um sentimento de despedida, olhando para tudo como da última vez se trata-se, lembrou-se da frase do cigano, “Ultima compra em Portugal”, mas logo pensou… puta que o pariu… merda de cigano.

Chegaram frente ao grande portão da Base Aérea de Figo Maduro, paredes-meias com a grande entrada de Lisboa o Aeroporto Internacional , também conhecido por da Portela.

Um último pensamento e ainda dentro do autocarro. “ Não existe volta a dar, agora é ir e voltar”

Karl d'Jo Menestrel
08/02/2010

1 comentários:

paula barros disse...

E vou acompanhando a história, o momento do ir...espero o está lá...e a volta...e tanta histórias vão se suceder, tantas lembranças....e a vitória na vida.

Me emocionei, estou curiosa, gostei de observar algumas palavras, e conhecer esse personagem mais e mais.

abraço com carinho